O neoliberalismo, mais do que uma doutrina econômica ou um conjunto de políticas de austeridade, constitui uma verdadeira racionalidade que tende a generalizar a concorrência como norma de conduta e a empresa como modelo de subjetivação (Dardot & Laval, 2016). Nas cidades, essa racionalidade encontra um terreno particularmente fértil. O espaço urbano, historicamente lócus da reprodução social e da vida pública, é progressivamente reconfigurado segundo a lógica do capital financeiro, da gestão empresarial e da individualização dos riscos. Este artigo, desenvolvido no âmbito do GT 1 do GPSEM — "Neoliberalismo: o novo espírito do capitalismo" —, explora cinco dimensões desse processo, articulando contribuições de autores como David Harvey, Michel Foucault e Pierre Dardot.
1. Reconfiguração da acumulação capitalista tardia
A crise do modelo fordista-keynesiano nos anos 1970 abriu caminho para uma nova fase de acumulação do capital. David Harvey (2005) caracteriza esse período pela transição do capitalismo organizado para um regime de acumulação flexível, no qual a "acumulação por despossessão" — privatização de bens públicos, financeirização de direitos sociais e mercantilização de esferas antes não mercantis — torna-se central. Nesse contexto, a cidade emerge como fronteira estratégica da acumulação. Não se trata apenas de produzir mercadorias na cidade, mas de produzir a própria cidade como mercadoria. A reestruturação urbana pós-fordista impõe uma nova geografia de desigualdades e segregação, que o GPSEM investiga em suas linhas de pesquisa sobre sociabilidades urbanas e espaço público, como aprofundado em nossos temas de pesquisa.
2. Financeirização da moradia
A habitação, bem fundamental para a reprodução da vida, foi transformada em um dos ativos mais cobiçados do capitalismo contemporâneo. A financeirização da moradia se expressa na expansão do mercado de hipotecas securitizadas, no crescimento dos fundos imobiliários e na atuação de grandes incorporadoras financeirizadas. As consequências são graves: elevação explosiva dos preços dos imóveis, expulsão de moradores de baixa renda de áreas centrais (gentrificação) e aprofundamento do déficit habitacional. O Estado, longe de se retirar, atua ativamente desregulamentando o solo urbano, oferecendo subsídios ao mercado imobiliário e criminalizando ocupações. Esse processo agrava a segregação espacial, tema central para a compreensão das dinâmicas urbanas contemporâneas.
3. Cidade-empresa e entrepreneurial urbanism
A partir dos anos 1980, o planejamento urbano tradicional, baseado no zoneamento funcional e na provisão estatal de infraestrutura, cedeu lugar ao urban entrepreneurialism (Harvey, 1989). As cidades passam a competir globalmente por investimentos privados, eventos esportivos e mega projetos de revitalização. A gestão urbana assume o léxico empresarial: eficiência, competitividade, marketing de cidade, parcerias público-privadas (PPPs). O cidadão é interpelado como consumidor de serviços urbanos, e não como sujeito de direitos. Essa lógica empresarial opera frequentemente à revelia das maiorias, priorizando enclaves de excelência para turistas e investidores enquanto as periferias e os territórios populares são relegados ao abandono ou à gestão pela escassez. A desigualdade urbana se aprofunda sob o signo da cidade-empresa.
4. Privatização de serviços públicos
Saneamento, transporte coletivo, iluminação pública, educação e saúde — serviços historicamente conquistados como direitos sociais — têm sido crescentemente transferidos para a gestão privada sob o argumento da eficiência e da necessidade de alívio fiscal. A privatização, contudo, não é um processo técnico neutro. Ela redefine o acesso aos serviços urbanos com base na capacidade de pagamento, aprofundando as desigualdades socioespaciais. Nas periferias, onde o Estado historicamente se fez ausente, a privatização frequentemente significa precarização e tarifas abusivas. A articulação entre vulnerabilidade social e ambiental é objeto de investigação do GPSEM, em especial no GT sobre mudança climática e periferias urbanas.
5. Novas subjetividades urbanas
A racionalidade neoliberal não se limita a reformar instituições; ela produz subjetividades. Inspirado em Michel Foucault, o conceito de governamentalidade neoliberal designa uma arte de governar que opera pela modelagem das condutas. O homo œconomicus não é mais o parceiro da troca, mas o empresário de si mesmo, responsável por seu próprio capital humano, sua mobilidade, sua segurança e sua moradia. Na cidade neoliberal, o indivíduo é instado a gerir seus riscos — da violência urbana à instabilidade habitacional — como problemas privados, solucionáveis pelo esforço individual ou pelo consumo de serviços de segurança privada, planos de saúde e financiamentos imobiliários. Essa subjetivação fragmenta a esfera pública e dificulta a construção de pautas coletivas por direito à cidade. Para aprofundar esse debate, o GPSEM organiza grupos de trabalho regulares que articulam pesquisa e intervenção social.
Conclusão
A análise do neoliberalismo como racionalidade urbana permite compreender que as transformações das cidades contemporâneas não são acidentais ou conjunturais. Elas obedecem a uma lógica consistente de mercantilização, financeirização e individualização da vida urbana. Desnaturalizar essa racionalidade é o primeiro passo para imaginar e construir futuros urbanos alternativos, fundados no direito à cidade, na justiça social e na gestão democrática dos bens comuns. O GPSEM, por meio de suas atividades de pesquisa e extensão, segue comprometido com essa tarefa crítica.
Perguntas frequentes sobre neoliberalismo e cidade
É a aplicação da racionalidade neoliberal à gestão e à produção do espaço urbano. Envolve a financeirização da moradia, a privatização de serviços públicos, a transformação da cidade em empresa e a produção de novas subjetividades individualizadas, substituindo o direito à cidade pela lógica de mercado.
A financeirização eleva o preço do solo e dos imóveis, empurrando populações de baixa renda para as periferias distantes e precarizadas. Isso agrava a segregação espacial ao concentrar a riqueza em determinados bairros e a pobreza em outros, consolidando um urbano fragmentado e desigual.
É um modelo de gestão urbana que adota valores empresariais como competitividade, eficiência e marketing territorial. A cidade passa a ser administrada como uma empresa que precisa atrair investimentos e consumidores, muitas vezes em detrimento das necessidades da maioria da população.
Foucault oferece o conceito de governamentalidade, que permite entender como o neoliberalismo governa não apenas por leis, mas pela produção de subjetividades. Na cidade, isso se expressa na responsabilização individual pela segurança, moradia e mobilidade, dissolvendo responsabilidades coletivas e fragilizando o direito à cidade.
O GPSEM reúne regularmente pesquisadores em seus grupos de trabalho e seminários. Acompanhe nossa produção acadêmica e participe dos debates.
